sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A Chacina do Charlie Hebdo e os Ecos de Camus

A redação do jornal satírico francês Charlie Hebdo foi chacinada. Dois atiradores fortemente armados ceifaram a vida de uma dúzia de pessoas, ferindo outras tantas outras. Os assassinos seriam muçulmanos se vingando do Charlie pela publicação das polêmicas charges de Maomé em 2011. Como o atentado, o mundo entrou em choque, os franceses saíram às ruas, os líderes mundiais condenaram o atentado com veemência e, para completar a praxe, tags de solidariedade invadiram as redes sociais. Enfim, um péssimo cartão de visitas para 2015. 

Obviamente, matar pessoas dessa maneira é um absurdo total e completo, mas é fundamental observar os desdobramentos disso à luz de um contexto no mínimo delicado: a crise econômica persiste e, por tabela, o espectro do neonazismo, e outras formas de fascismo histórico, voltam a mostrar suas garras. A exemplo dos anos 1930, eles também têm uma cortina de fumaça central na forma de inimigo público:  para os novos fascistas não é mais a "ameaça judaica", mas sim os muçulmanos, os imigrantes e o Islã. Agora, eles têm o seu factóide como os nazistas tiveram o incêndio do Parlamento.

A nova extrema-direita vende a ideia de que ela, e somente ela, tem a solução para a desgraça da Europa -- a qual, de fato, esta afundada no neoliberalismo torpe mantido pelas forças de centro-direita e centro-esquerda, em consenso. Seu objetivo, contudo, é salvar o capitalismo dele mesmo, não importa como. E para salva-lo, é preciso apagar o antagonismo real -- a exploração da multidão de precários pelo sistema financeiro -- pela via da construção de um antagonismo falso, no qual os problema é, na verdade, um confronto de culturas: em vez de capital vs. trabalho, temos uma ópera bufa na qual lá estão os franceses contra os imigrantes/não-cristãos/não-franceses étnicos.

O episódio em questão seria, pois, a prova cabal que o Front National, e seus congêneres de extrema-direita na Europa, teriam pois "razão" quanto ao seu discurso. Agora, sua líder Marine Le Pen sugere um plebiscito para reintroduzir a pena de morte na França, além de propor fechar as fronteiras do país e outras asneiras autoritárias.

Assim, mesmo sem uma investigação sólida, o crime já tinha um culpado: qualquer muçulmano (que possivelmente é também árabe e "imigrante").  Pouco importa quem, de qual organização e o por qual motivo: os culpados já foram achados (e condenados!), são milhões de pessoas, quase um décimo da população da França! Triste ironia, quis o destino que um policial morto ao tentar deter os terroristas fosse, ironicamente, muçulmano. 

Não custa lembrar que no famoso massacre na ilha norueguesa de Utoya, na qual dezenas de membros da juventude socialista local foram mortos por um atirador, logo se desconfiou de que o culpado fosse um radical islâmico, o que não se confirmou: o assassino era Anders Breveik,  um norueguês étnico, cristão e de extrema-direita. Ele foi julgado na forma da lei,  terminou condenado por um tribunal legítimo, sendo condenado para uma pena já prevista. Nem o cristianismo, tampouco a extrema-direita foram estigmatizados (embora a última merecesse). 

A Noruega deu um exemplo para mundo na forma como lidou com o assunto, mas frise-se que a Europa não cobrou nenhuma medida de exceção assim que se conheceu a identidade, e as motivações, do terrorista.  Fosse ele um muçulmano, teria sido igual?

Longe de haver um mundo preto-e-branco, na França, o atual governo "socialista" de François Hollande apoiou fundamentalistas islâmicos na Síria para, em aliança com Estados Unidos e Reino Unido, derrubar o regime local. Nem é questão de dizer que a França, ecoando o velho colonialismo que a fez cometer crimes contra humanidade aos borbotões, provoque indiretamente o extremismo entre muçulmanos, mas que ela, num jogo de poder absolutamente cínico, chega a diretamente cria-los, sustenta-los e apoia-los.

No jogo pela hegemonia do Império, elites burocráticas dos velhos Estados nação se aliam e fazem o que for necessário para manter ou alcançar o poder. O Ocidente, apesar do seu discurso maniqueísta de se arrogar como arauto das liberdades é quem, contraditoriamente, mais apoia o fundamentalismo islâmico -- e teocracias como a Arábia Saudita.

Quando os americanos justificam, agora com a França lhes sendo absolutamente subserviente, sua política de intervenção e domínio pela desculpa do confronto entre civilização (o Ocidente) e a barbárie (o Islã), ela mente copiosamente: existe uma aliança entre as elites ocidentais e parte das elites islâmicas (como há entre a China e a Rússia com a outra parte das oligarquias do Oriente Médio e Mundo Islâmico), e ela é necessariamente contra a multidão de pobres e oprimidos que, embora não saiba, têm o mesmo interesse seja na península arábica ou na Europa.

Enxergar esse caso como uma disputa entre liberdade de expressão e fundamentalismo ou, pior, como um choque cultural -- no qual explícita ou implicitamente se afirme a superioridade dos valores "iluministas ocidentais" face às outras culturas -- é fazer o jogo da extrema-direita que, à base do preconceito, está a à espreita na esquina para tomar o poder -- ou, no mínimo, para evitar que a nova esquerda vença as eleições. 

Não custa lembrar de O Estrangeiro, clássico de Albert Camus, no qual o personagem principal foi condenado à morte (!) por não ter chorado no enterro da mãe, mas não por ter matado um árabe na então colônia francesa da Argélia. Camus não foi um visionário apenas por profetizar o agravamento da situação na Argélia, e as causas tanto disso quanto da futura derrota francesa, nem por antever um futuro como um colonialismo interno (dentro da própria França e contra os imigrantes) , mas por ter entendido o que fundamentou tudo isso: uma indiferença radical como forma de eliminar aquilo que não se enquadra à universalidade do republicanismo francês.

Esses imigrantes, e os tantos cidadãos franceses (muçulmanos ou árabes) cuja cidadania é negada por "uma falta de identidade étnica", vivem no limbo de um estatuto jurídico -- e ontológico -- causado por essa indiferença: se os valores do humanismo caracterizam a boa república, há aqueles que são humanos piores (ou nem isso), os quais jamais serão cidadãos reais (mesmo que o sejam), condenados a trabalhar muito e reclamar pouco.

Foi talvez por essa indiferença que o Charlie não percebeu a gravidade do que fez quanto às charges de Maomé. Sim, aquelas charges reforçaram sim a islamofobia na França -- e a islamofobia é a melhor e maior fábrica para gerar terroristas. E não há que dizer que o satírico era assim para todos: há poucos anos, ele demitiu, com toda razão, um cartunista que cometeu ofensas semelhantes contra o judaísmo. Os muçulmanos, e em menor grau árabes e africanos cristãos, são menos cidadãos, menos humanos naquele país.

Enfim, o atentado não muda o fato de que o Charlie errou, e errou feio, na ocasião das charges de Maomé, mas, também, não torna agora as vítimas menos vítimas. Isso não é um debate sobre culpa, mas a análise de um processo histórico bem complexo. Do ponto de vista político, é questão da França fazer uma reflexão profunda sobre si mesma. Basta ver as retaliações contra a comunidade islâmica, que já começaram a acontecer.

Não resta dúvida que os assassinos devem, na forma da lei e na medida de sua culpabilidade, pagar individualmente pelos seus crimes, mas isso não pode ser vendido jamais como uma questão cultural, como "fascismo islâmico" ou outras superstições, que só alimentam a real ameaça: o maior avanço da extrema-direita desde os anos 1930. E se algo realmente ameaçou a Europa, e a existência de uma cultura europeia, foi um fascismo bem europeu.




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