sexta-feira, 21 de março de 2014

Claudia tinha um Nome...e não Merecia (ser arrastada por um camburão até) Morrer

Imagem daqui
Arrastar. É uma ideia comum no nosso falar. Nós nos indignamos só de pensar em "arrastões". Mas o que dizer de nós, a sociedade brasileira, esta maravilha coletiva -- que ou apóia ou não se indigna o suficiente com a violência de Estado -- diante de uma vítima de uma brutalidade sui generis que envolve o "arrastar", só que em uma situação inversa: Cláudia Silva Ferreira -- negra, mulher, mãe, tia, amiga, pobre, vizinha, um ser humano -- foi arrastada no asfalto por uma viatura policial em movimento, que a "socorria", depois de ter sido baleada em (mais) uma ação desastrosa da mesma polícia. 

Há várias nuances. Como as novas maneiras de usar as tecnologias tira absurdos como esse da invisibilidade seria uma delas, o caso foi documentado em um vídeo feito pelo celular de um motorista, mas o buraco é mais embaixo. Importa aí a maneira como a sociedade brasileira parece tentar eximir os policiais, a novilíngua da mídia "livre" que trata Cláudia como a "mulher arrastada" ou, até mesmo, a denúncia voluntarista de parte da esquerda -- que num impulso trabalhista -- lembra que Cláudia era "trabalhadora" e não merecia isso -- mesmo inconscientemente, dizer isso é como dizer que quem trabalha poderia morrer, ou seria mais matável, menos digna de proteção.

A meu ver, a questão central, o nó górdio dessa conversa, é precisamente o nome. E eu tenho me debruçado sobre a questão há algum tempo. A invisibilidade, o grunhido do pelotão de linchamento, a retórica da mídia, o trabalhismo, tudo isso precisa, no calor dos fatos, iniciar seu discurso com uma âncora, o nome. E Cláudia, um ser humano multifacetado e bem real, perde assim o esplendor da sua diferença em relação ao mundo para, de repente, ser reduzida a um nome genérico, homogenizador: a vítima dos policiais bonzinhos -- a baixa "colateral" --, a "arrastada", a trabalhadora são reduções que visam sujeitar a complexidade de uma humana às regras de um discurso de poder.

A aparente ausência de um nome específico não equivale ao anonimato. A condenação a pertencer a um "nome genérico", um nome de apropriação, é da ordem do Poder, ou melhor, é a pedra de toque do Poder: e tudo vira número em uma estatística ou uma figura, um modelo. Tudo perde a carne. O Poder foge à regra -- porque ele faz as regras -- sempre que ameaçado, eis que ele busca a carne -- a qual negligencia, mas sabe muito bem que existe -- e se suas vítimas nunca têm nome próprio, os seus inimigos possuem -- ou devem possuir -- nome, rosto, RG, CPF, tipo sanguíneo.

Não causa espanto, a bem da verdade, que grande parte do discurso antagônico ao sistema, em certa medida, aqui, ali ou bem longe daqui, capitule à mesma lógica dos seus algozes. Possuem a mesma lógica interna o discurso da mulher trabalhadora -- que não merecia morrer por isso e por isso -- e o do protesto que "não teve trabalhador" e que, por tabela, merece ser desqualificado: isso alude a uma ideia utilitarista, para a qual tudo é traduzido numa linguagem de hierarquias escalonada conforme a [suposta] importância para a produção. O produtivismo como chave de explicação do porquê as esquerdas mundiais, em grande medida, preferem caiar a senzala (pós-moderna) a libera-la.

O confronto em questão, do qual Cláudia foi uma baixa bastante incidental, é parte da guerra não declarada contra as minorias, os diferentes, da sociedade global. Repercute aqui, ali em todo canto. Mas se discutir política exige, antes de tudo, fugir da discussão sobre quem tem culpa no cartório, é preciso enxergar, para além do mal, que nós que falamos, falamos muito e fazemos pouco ou quase nada. 






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