segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Tudo que é Bolsonaro Desmacha no Ar?

Outdoor simpático a Bsolnaro pichado em Lavras-MG (retriado daqui)



Bolsonaro. O que dizer disso? Vivemos em tempos distópicos no mundo, e o Brasil não é uma ilha. A implosão da ordem normal das coisas cria uma vertigem, um efeito pelo qual o chão se desfaz, abalando nossas mais elementares crenças na realidade. Essa realidade, esse regime de símbolos que supúnhamos ser sólido como o chão sob os nossos pés, sempre foi isso: um dos muito sistemas, ou modos do sistema, possíveis, mas nem por isso a sensação deixa de ser menos nauseante, pois nem mesmo a consciência dessa abstração nos livra dos efeitos materiais e concretos desse processo. Tudo que é sólido desmancha no ar. E como desmancha. 

A distopia vem quando esse rompimento não cria nem a liberdade nem um novo simulacro, uma nova matrix, dando vazão à incerteza e a emergência de seres apocalípticos. Jair Messias Bolsonaro expressa bem isso: para uns ele é o messias retornado e necessário enquanto juiz, ou possível, para outros ele é o anticristo -- duas fantasias apocalípticas recorrentes e, também, simétricas, que ilustram o esforço trascendente do velho mundo em encarar seu limiar, seu desmanche.

O que Marx e Engels inovaram, captando a fina ironia de um outro grande dialético, Shakespeare, sobre a insustentável leveza dos planos de representação é que o capitalismo, como qualquer sistema despótico, não só constrói seu planos ideológico e simbólico de realidade pela destruição do antigo como, igualmente, destrói o que cria progressivamente e como regra, instituindo novos planos e novos modos de planos. 

A novidade capitalista é que seu funcionamento, e sua sobrevivência, gira em torno de uma norma na qual a excepcionalidade da ruptura se torna regra geral -- não à toa, o pensamento nazista girou em torno do aperfeiçoamento da destruição por meio de sua domesticação, da sua sujeição à praxe e à política de governo, de como fazer comandar racionalmente a destruição. Bolsonaro é esse ser que emerge -- no mundo que o novo não nasceu e o velho se encontra às turras com à sua morte, para recorrer à imagem clássica de Gramsci.

Mas as rupturas necessárias, são, ao mesmo tempo, brechas, mesmo na sua hipótese apocalíptica de distopia e crise profunda. Estamos em um desses momentos no Brasil. O vento é forte e a tempestade no horizonte se anuncia com nuvens escuras e densas. O sistema se esforça para uma recomposição de normalidade, um novo simulacro, que pode se utilizar da pulsão de morte, e suicídio, e precisa se esquivar das pulsões de vida. O risco sempre está presente.

A capacidade romper consigo mesmo, trair às suas criações sempre foi o mistério e a feitiçaria que permitiu ao capitalismo sobreviver, mas sempre foi a maldição que não o faz viver jamais em paz. Nenhum operador seu está seguro na sua tarefa: o perigo que ameaçava o senhor feudal ou os aristocratas do mundo antigo eram exteriores ao sistema que operavam.

Bolsonaro, como a maioria dos deputados brasileiros, atende ao modelo de cidadão do sistema moribundo, mas é quem mais violentamento o defende: é branco, homem, cisgênero, heterossexual, bem-sucedido. Essa constituição do discurso, e de imaginário, evidentemente é uma expressão tardia e sólida do velho fascismo, que apenas sistematizou chavões, superstições e distúrbios psicossociais da Europa do século 19º. 

Em um primeiro lugar, Bolsonaro é visto paradoxalmente como alguém de fora da política tradicional e, por outro lado, como alguém próximo da nossa realidade social e de um desejo de restauração e conservação como forma de resistir ao estado de coisas atual -- seu discurso é bastante impressionante, em termos de agressividade, para um político, mas não para as pessoas, as pessoas sempre têm um tio, um pai ou um avô como ele. 

No mais,  a onda de renascimento de um extrema-direita, por conseguinte, não é estranha a essas terras. Do mesmo modo que o fato da extrema-direita ter ficado hibernando, mas não morta, desde o final da Segunda Guerra Mundial também não nos é alheio. Bolsonaro é o símbolo desse ressurgimento no Brasil, para quem o ama, para quem o odeia.

Bolsonaro, no entanto, vem de um tipo de direita radical que, por seu turno, não vingou exatamente pelo mundo. O atual revival da direita fundamentalista passa, também, por um pós-fascismo pelo qual lideranças incorporam uma estética pós-moderna conjugada com uma agenda semelhante a do velho fascismo; Bolsonaro, contudo, é um fio desencapado do neoliberalismo: se Pinochet foi o precursor disso, como "mal necessário" desse projeto, Bolsonaro é uma reprodução tardia, que aconteceu quando já estava velho.

A nova direita constitui seu imaginário sendo estaticamente (pós)moderna e politicamente retrô: voltamos aos anos 1920, na qual a resposta para o presente está num passado ideal e seguro, o que exige  uma aliança contra minorias sociais, mas com um sistema de proteção social para as maiorias agrupadas na forma de nação -- é assim com Marine Le Pen e, também, com Trump, o Alternativa para a Alemanha ou o Partido Independentista Britânico.

Bolsonaro, torno a dizer, no fundo não têm isso a oferecer aos seus eleitores, talvez os mais crentes e engajados. Bolsonaro é o fundamentalismo de mercado associado ao Estado grande enquanto máquina de repressão, aprisionamento e morte. As dúvidas quanto isso giram em torno muito mais do que Bolsonaro poderia ser obrigado a se tornar em um governo do que, vejamos só, o que ele seja hoje.

As três gerações de extrema-direita expressam, contudo, um mesmo desespero das oligarquias dominantes em sistema capitalistas. No frigir dos ovos, o que as une é a percepção das elites econômicas proprietárias capitalistas perderem o controle -- ou até mesmo terem um fim trágico, que elas supõem que as pessoas lhes dariam caso soubessem como o sistema funciona.  O efeito geral da extrema-direita sobre a sociedade é de um suicídio coletivo como bem observam Deleuze e Guattari, começado pela prática de morte -- é como se o interesse em matar, e não só deixar morrer, para sobreviver escondesse um desejo suicida.

Bolsonaro, entretanto, passou a sofrer ataques pesados da grande mídia. Por sinal, ele está sofrendo ataques como nunca. Denúncias de corrupção passaram a explodir depois que o deputado, finalmente, conseguiu partido para poder se candidatar. Até então, Bolsonaro era uma figura execrada porém tolerada. 

A questão central é que a realização do fenômeno global do renascimento da extrema-direita no Brasil, ironicamente, vem acompanhada de um cruel paradoxo. Enquanto na Europa, o fenômeno se conecta à massa de trabalhadores da etnia majoritária, mas gradualmente excluídos do status que passaram a ter no século 20º pela decadência dos mecanismos do bem-estar social -- seja o salário ou os serviços públicos --, no Brasil, o fenômeno da extrema-direita é um fenômeno da elite ou, ao menos, da clientela da elite, dos estratos médios.

A contiguidade do desespero de uma parcela da elite e o elemento racial, mas também de gênero são comuns, mas no aspecto do substrato de classe, as pesquisas brasileiras surpreendem: é entre jovens e mais altamente escolarizados que Bolsonaro encontra seus eleitores. São as classes médias urbanas do sul que apoiam o radicalismo de direita, não trabalhadores pobres -- nem que fossem os trabalhadores pobres e brancos.

Em termos eleitorais, enquanto na Europa são setores que antes poderiam votar nos partidos à esquerda do centro que rumam para a extrema-direita, no Brasil, são eleitores que tenderiam a votar na centro-direita ou mesmo na direita clássica que cogitam em votar em Bolsonaro. 

Nos EUA, digamos que o sistema praticamente bipartidário tenha ajudado a Trump crescer tomando espaço de políticos tradicionais de direita, mas os países europeus, multipartidários por natureza, tivessem um sistema como o americano, possivelmente, o mesmo teria acontecido por lá.

Seja na Alemanha, na França ou nos EUA, o eleitor da extrema-direita é da etnia majoritária, mas pertence aos setores excluídos da educação superior e acertado em cheio pela dinâmica de precarização econômica. Aqui não. É o branco que quase chegou lá se aliando com setores radicais da oligarquia e com o estamento militar, pronto a conservar seus privilégios.

A aliança, aqui, é entre a parte mais desesperada da oligarquia e setores médios, seja pelas peculiaridades do Brasil -- como a existência prologanda e massiva de uma escravidão colonial afetou a composição de classe -- ou, talvez, porque a possibilidade de adesão a esse discurso de extremista encontre repouso entre setores que sintam, por alguma razão, que estão a perder seu status social -- e se isso, no Brasil, vem de setores que não são os mais afetados pela crise ou pela pobreza do país, logo, voltamos à primeira questão: somos uma nação fragmentada pela herança colonial e escravagista não resolvida.

A isso se soma à radicalização discursiva que a direita moderada adotou nos últimos anos: desde as eleições e o confronto ao petismo, muitas vezes recorrendo a expedientes morais, seja no processo de destituição bárbaro de Dilma Rousseff, na qual setores radicais foram arregimentados, financiados e apoiados para tanto.

Se a queda de Dilma gerou uma volta da centro-direita ao poder, para executar um programa de austeridade radical ao sabor do mercado financeiro, ele não colocou esses grupos necessariamente no comando, embora lhes tenha cedido cargos e algum espaço. Todavia, as inúmeras redes com discurso de ódio acabaram por ganhar autonomia e relevância eleitoral ao apoiarem Bolsonaro. 

A decepção com o governo Temer, em vez de gerar qualquer autocrítica, resultou em uma radicalização desses grupos a procura de uma solução autêntica e orgânica aos seus anseios. De repente, isso tornou um deputado de inúmeros mandatos em alguém de fora do jogo político -- a estratégia do establishment político brasileiro, de isolar e tolerar Bolsonaro, lhe deu, no nosso atual contexto, a visibilidade necessária para ser presidente, blindando-lhe da percepção negativa que se abate contra a classe dirigente.

Por outro lado, Bolsonaro não é líder de nada, não tem um entourage preparado, mas é apenas a face pública que se permitiu ser o pára-raio dessa onda grande -- apoiada, ainda, por estamentos como as forças armadas, em sua base e mesmo entre hierarcas. Em outras palavras, o número que Bolsonaro soma é relevante, embora não suficiente para vencer uma eleição.

Do ponto de vista dos grandes números, ele está simplesmente impedindo que um candidato da direita tradicional, encabeçada até segunda ordem pelo PSDB, vá ao segundo turno. A questão é: os grandes polos de apoio dessa direita estão nos grandes meios de comunicação e eles, por meio de denúncias de corrupção, esperam minar uma candidatura que eles julgavam ser, até outro dia, uma bolha bastante frágil.

Esses ataques podem minar Bolsonaro, mas não passarão uma borracha nas forças sociais que ele representa, uma onda poderosa que pode ser organizada dentro de alguns anos por figuras e organizações políticas mais sofisticadas e perigosas, caso a política tradicional ou transformadora não apresentem soluções.

É um dilema que resta uma questão em aberto que é o fato das pessoas mais instruídas estarem dando vazão a essa "solução". Se as instituições que deveriam, minimamente, formar os cidadãos mais aptos a pensar estão falhando em sua missão, a profundidade e complexidade do problema brasileira é consideravelmente maior.

Se Bolsonaro também desmanchará no ar, tal e qual a ordem que lhe impedia de ser um político relevante, é algo ainda não definido embora provável. O movimento que lhe origina, no entanto, é mais complexo e difícil de combater. Retirar a antena que fez convergir esses setores não necessariamente evitará sua convergência em outra ocasião próxima, de forma mais agressiva e inteligente. A única certeza é que nossas certezas são vãos e se desfazem com muita facilidade.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Trump: sob fogo e fúria na América tardia

Ilma Gore -- Trump Nu (retirado daqui)
O lançamento de Fire and Fury, livro sobre os bastidores da Casa Branca de Trump é um belo exemplar de fogo amigo voltado a enfurecer o presidente mais impopular da história, só para fazer jus ao nome. E também é só mais capítulo na crise que corrói a América, incapaz de se reposicionar numa ordem global no qual o velho modelo de hegemonia americana não funciona mais.

Há, é claro, uma boa dose de calculada encenação no relato insider e em primeira mão, do mesmo modo que Trump, igualmente é um grande personagem, seja nos seus negócios ou na sua incursão da política -- um personagem que se tornou a voz de um setor da sociedade americana cuidadosamente azeitado pelos republicanos para servir (apenas) como massa de manobra.

Trump sempre se vendeu como um parvo para ser subestimado por rivais e concorrentes, além de atrair para si a simpatia do público médio americano do interior -- e a mesma lógica se aplica à sua incursão na política. Agora, a chave é retratar essa "verdade de homem comum" como debilidade e demência. Talvez funcione.

O desastre Trump, o presidente americano mais impopular desde que esse tipo de medição passou a ser feito nos anos 1930 pelo instituto Gallup, está além das aparências. Trump desagrada o establishment político americano, à esquerda e à direta, e também não oferece uma saída para os impasses da América, uma vez que governa de maneira compartilhada com um Congresso hostil, inclusive no que diz respeito a seu partido.

A receita é simples: se o grandioso plano Obama fracassou, de acelerar o processo de globalização como forma de permitir aos EUA manter e afirmar sua liderança, a tentativa de voltar a um passado glorioso, industrialista e isolacionista, encontrou a dura barreira da realidade.

Após Bush Jr. tentar tirar os EUA da estagnação com largo envolvimento em guerras, Obama operou a reconstrução econômica do país salvando antes de tudo o mercado financeiro. De um jeito ou de outro, o americano comum esteve órfão nos últimos dezesseis anos, depois de décadas paternidades relapsas, na qual o american way of life era desconstruído lenta e silenciosamente. 

A vitória de Trump foi o gesto final de um processo no qual os republicanos retomaram a Casa Branca depois de, a rigor, assumirem a maioria política em todas as instâncias da política americana, desde o Congresso dos Estados Unidos, passando pelos congressos estaduais e governos estaduais. Tudo sob a era Obama, e seu fantástico fracasso em reconstruir a América -- pelo menos para além dos grandes grupos de interesse do Partido Democrata. Mas a cereja do bolo foi, também, uma vitória de pirro.

O pós-fascismo de Trump não funciona exatamente nos tempos atuais, reunir maiorias sociais sob a égide de um discurso abstrato de nação contra minorias não é o tipo de coisa que constrói coesão ou estabilidade nos dias atuais, mas sobretudo há falhas na condução da geopolítica, que representa muito em matéria de política interna nos EUA.

Os EUA assumiram a hegemonia mundial debaixo da decadência das potências europeias, pois preferiu dominar áreas estratégicas de comércio global em vez de administrar diretamente enormes populações. Depois, serviu como mecanismo do mercado global capitalista, criado no pós-guerra. Os EUA lutaram com dureza, e impuseram aos seus parceiros europeus, o encargo de servir como motor da economia capitalista, emitindo a moeda internacional e servindo como a cabeça de sua polícia global.

A enorme responsabilidade americana parecia ser uma tarefa fácil, gerando como retorno o privilégio exorbitante de emitir a moeda global. O sonho de fadas acaba no final dos anos 1990, quando a responsabilidade aumenta e, por outro lado, a ausência de uma guerra fria transforma a atividade da guerra em flagelo para o mercado capitalista global. 

Ora, o mundo capitalista não sabia, mas a grande mola mestra da economia americana desde os anos 1950 era, de fato, o complexo bélico-industrial, isto é, investir em armas, usar as forças armadas como pólo de inovação tecnológica e inserir esses ganhos no mercado de consumo.  O imperialismo de novo tipo americano guardava em si um arcaísmo, próprio dos velhos impérios e gérmen de sua decadência -- e a Guerra Fria permitia aos EUA mascarar isso.

É aí que nem Bush, nem Obama e, tampouco, Trump conseguem operar. Todos buscaram e buscam saídas de curto prazo para manter tudo como antes. Sem as velhas guerras indiretas nas bordas da Guerra Fria, o próprio sistema capitalista se assusta com essa bélico-dependência americana e ensaia migrar para novas zonas de consistência.

A resposta de Trump contra uma ordem global é uma mistificação louca. E pior, ela se deu, objetivamente, com um erro de geopolítica inverso ao de Obama. Se o ex-presidente acertou na maneira como conduziu a política no extremo-oriente, errou feio no Oriente Médio. Trump, por sua vez desfez os erros de Obama no Oriente Médio, embora tarde demais, enquanto errou na sua relação com a China.

Vejamos, Obama procurou interferir nas Primaveras Árabes. O terror com insurreições multitudinárias que abalavam uma ordem, tirânica, que favorecia aos EUA -- e foi decisiva para derrotar os soviéticos -- foi trocado pelos novos estrategistas americanos por uma vã esperança: interferir à distância e usar as revoltas como forma de aumentar ainda mais o poder.

Obama usou da derrubada do governo sírio como forma de derrubar os preços internacionais do petróleo e, assim, valorizar o dólar sem precisar praticar uma política econômica restritiva, isto é, diminuir emissões ou aumentar os juros. Mas ao afiançar uma coisa na outra, dependia da queda do regime para as expectativas virarem realidade. Só que seus apoiadores dentro e fora da Síria não eram capazes de agir juntos, uma vez que não desejavam a mesma coisa.

Turcos, israelenses e sauditas não tinham interesses convergentes, poderiam derrubar o regime sírio, mas não tinham, nem têm, acordo sobre o que colocar no lugar. A oposição laica da Síria foi rapidamente suplantada por radicais islâmicos, primeiramente tolerados e depois causadores de mais dor e mortes. O resultado da guerra, com centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados chegou rapidamente à Europa.

Os russos, para piorar a situação de Obama, encontraram a deixa ideal para intervir no conflito e defender seus interesses, obtendo um êxito militar que Washington supunha que Moscou não tivesse mais, ou não tivesse ainda. A Rússia, viu, veio e venceu, voltando a ser um peça importante no Oriente Médio, algo que não acontecia desde o começo dos anos 1970.

Trump estava certo em se unir a Moscou e cessar a estratégia louca de Obama para a Síria, inclusive porque um petróleo barato não interessa tanto assim à economia americana, não tanto quanto possa parecer. Mas já era tarde.

O problema de Trump foi elevar o tom contra a China, que buscou ficar silente, apoiando o grande plano global de Obama em tantos momentos. Ora, os chineses arcaram com os ganhos sem ter o ônus, da desvalorização do barril de petróleo e da valorização do dólar. E estavam lá, funcionando como recicladores do capital americano, exportando mercadorias baratas e comprando títulos americanos com os excedentes comerciais.

Trump não tinha motivo para mexer com os chineses, mas mexeu, julgando ser uma prioridade travar a China comercialmente para reindustrializar a América. O resultado das tensões, de declarações burras até pressão militar -- a Coreia do Norte pouco importa econômica e politicamente, se ela virou alvo, o alvo real só poderia ser a China, que depende da sua vizinha para a segurança nacional.

O ponto é: seja por esforço de guerra ou por ajuda dos chineses e russos, os norte-coreanos terminaram seu projeto de rearmamento  com mísseis com ogivas nucleares capazes de atingir o solo americano. A invasão da Coreia do Norte fez água diante da impossibilidade militar de sua invasão. Trump fez de Kim Jong-Un virar um player internacional.

Com isso, os chineses se reaproximaram da Rússia e mais ainda da Eurásia: o grande projeto chinês é reciclar capitais cuidando do déficit infraestrutura da Ásia, sobretudo no que diz respeito à ligação por terra com a Europa. É a Nova Rota da Seda, um projeto que custava a sair do papel enquanto os chineses estavam tranquilos com o comércio do Pacífico. Ironicamente, isso interessa aos sul-coreanos, enquanto habilmente a Coreia do Norte buscou aproximação com sua rival do sul.

Sem garantias dos americanos de um livre comércio, sem tranquilidade nem mesmo nas suas águas territoriais, os chineses se lançam para dentro da Ásia, o que favorece a Rússia -- ou duplamente a Rússia, haja vista que a valorização do barril ajuda a economia local. Moscou, acusada de fazer Trump ganhar, acabou favorecida pelos erros e os acertos da Washington de Trump.

Voltamos à política externa americana. Trump, sem criar meios de voltar ao passado, sem criar meios de fazer os EUA saberem viver em paz ou criar novos meios para guerra, sem ser capaz de lidar com tensões sociais, sejam elas econômicas, raciais ou de gênero, sem agradar o velho establishment ou a nova política, se torna o cordeiro a ser sacrificado.

Mas a aparente estupidez de Trump não tornará uma volta do establishment em uma tarefa fácil. Primeiramente, porque o vice Mike Pence não é confiável. Depois porque remover presidente e vice seria uma situação inédita na história americana, e como a experiência brasileira ensina, um país de proporções continentais não é capaz de funcionar bem com uma solução tampão. 

Novas eleições seriam uma boa saída, mas isso dependeria das grandes máquinas políticas concordarem. Inclusive porque não há garantia de que a velha política ganhe. Como a burocracia americana lidaria com a eleição de um Bernie Sanders? Os impasses corroem a América e a ausência de soluções leva a um quadro de agonia, de morte ou, com alguma sorte, de dores do parto de um novo mundo que não necessariamente será bom ou belo.


P.S.: agradeço ao Edu pelas ideias trocadas sobre a América tardia e a Vera pelo estímulo a voltar a escrever. O blog precisou de um sabático, mas escrever é importante e terapêutico. Sempre bom voltar à ativa.


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Na Era do Impeachment: Estar em Minoria

(Da esquerda para a direita: Paulo Arantes, eu, Laís Bodanzky e Cibele Forjaz/foto Mídia Ninja)



Texto base da minha fala apresentada na mesa  Arte pela Democracia do Ocupe a Democracia.


Retomar a Arte Política & Performance Democrática

Boa noite a todas e a todos, agradeço ao convite da Rosana e me sinto muito honrado em comparecer a este evento neste momento crucial da nossa História, cumprimento também os demais integrantes da mesa

Esta fala é sobre a dimensão sim artística da política como forma de produzir democracia e construir saídas, mas é, para começo de conversa, sobre estar em minoria e a sensação de assombro que isso gera – sobretudo quando uma minoria não é democrática. É um pouco da minha pesquisa de mestrado, recentemente aprovada na PUC, sobre as tensões entre maiorias e minorias em uma democracia.

Em um primeiro momento, é preciso considerar o seguinte: não é digno de qualquer espanto o fato de estarmos em minoria quando o assunto é a democracia. São as minorias que tomam a iniciativa de mudar o mundo ou de conservar o que nele é importante para o bem comum. Sempre.

O movimento da maioria é de manada ou de matilha, ele ignora o que precisa mudar ou se conserva ou quais as consequências disso. Pegue qualquer revolução ou reforma e não raro estaremos diante inclusive da tragédia de sonhadores. Só que como bem sabemos mais vale uma boa morte do que uma má vida.

Diante disso, é perfeitamente normal que a maioria esteja a favor de um impeachment que, por sinal, se configura como um golpe. Mesmo em uma democracia. A democracia não é o estado de coisas em que estamos, mas o movimento real que permite antagoniza-lo para criar uma vida melhor.

Mas não seria a democracia o governo da maioria? E o desejo da maioria não seria o mais justo? 

A verdade, a dura verdade, é que não. A democracia convoca instrumentalmente maiorias apenas naquilo que lhes pertinente, o sufrágio universal, por sinal, serve para equiparar o voto dos fracos e dos fortes, dos ricos e dos pobres, não para gerar qualquer linchamento. Do mesmo modo que naquilo que diz respeito às minorias ou aos indivíduos valem as instituições. Maiorias não podem deliberar sobre o interesse de minorias ou dos indivíduos, sua deliberação minorias étnicas, pessoas com orientação sexual fora dos “padrões”. Para isso existem as instituições. Um processo de impeachment, como um processo penal, não pode ser guiado pelo instinto de linchamento.

Não é pela decisão da maioria que podemos ser ou não inocentados ou multados, mas pelo direito. Por isso, decisões do júri assim como aquelas referentes ao impeachment podem ser anuladas judicialmente. Mas nem sempre essas instituições garantidoras funcionam, a única coisa que pode fazer garantia os próprios garantidores é sempre a  multidão – a multidão insolente de Negri e Hardt, que não se confunde com a massa.

A democracia é o regime das minorias, a bem da verdade, um antigoverno ou o governo do qualquer um à moda de Rancière. A Maioria é que existe enquanto quantidade e padrão, a minoria é o que existe por si mesmo, como nos lembram Deleuze & Guattari.


Contudo, mas não precisaríamos de votos para deter um processo de impeachment, vencer eleições, aprovar leis? Ou como contornar isso?

A história universal é sobretudo irônica. Entre ser uma obviedade dize que a terra é redonda e gira em torno do Sol e ser linchado por dizer isso, houve um longo caminho. Ninguém cogitaria pôr em votação uma discussão sobre a terra ser ou não quadrada ou sobre quem gira em torno de quem, o Sol ou a Terra.

O caminho entre um e outro é a produção de uma narrativa que naturalize na vida comum as coisas como elas são. Não foi nem a ciência, em seu aspecto teórico ou empírico, que fez tal verdade prosperar sobre as superstições. Uma narrativa que conseguiu fazer tais verdades não apenas parecerem verdade, como realizarem o desejo humano: de conhecer, de navegar, de atravessar o mundo.

É, retornando à Rancière, no momento em que se produz um regime estético e narrativas ancoradas nisso que se é possível contar certas histórias. É a mesma fórmula, só que às avessas, do que fizeram déspotas ao longo de toda história humana: aqueles, mediante narrativas fantasiosas que serviam à criação de superstições, sempre nos dominaram.

Antes da verdade, produziram narrativas fantásticas, usaram a imaginação humana contra a própria humanidade. Mentiram várias vezes até que tais mentiras se tornassem a verdade da sua dominação. Eles mentem hoje da mesma forma. Mentem copiosa ao naturalizarem um processo golpista como um impeachment.

Fazer e retomar a arte política – como propõe Zé Celso Martinez Corrêa – é urgente. É construir narrativas capazes de neutralizar aqueles que usam a democracia contra ela própria. Fazer, como está sendo feito, movimentos, redes, produzir polifonia, fazer carnaval.

Só isso é que começou a reverter a morte por definhamento da nossa jovem democracia, que permite sonharmos em impedir a derrota no impeachment ou a viabilizar desde já uma resistência democrática.

Não faremos maioria no Congresso. A maioria é sempre do poder. Mesmo que o impeachment seja barrado foi, sem dúvida, por termos produzido verdades comuns que possibilitaram a resposta – e só assim podemos mudar isso.

Mesmo que seja uma vitória em número de votos será uma vitória da naturalização da democracia na sociedade. O tempo, contudo, conta contra a democracia. O que exige nosso esforço máximo, sem perder de vista que ocorra o que ocorrer, não podemos esmorecer por qualquer um dos cenários.

                                              






terça-feira, 8 de setembro de 2015

Os Refugiados do Império: Entre Anjos Sacrificados e o Êxodo

A foto do anjo-refugiado, morto às portas do Paraíso, chocou o mundo. O menino Aylan Kurdi repousava de forma sublime sobre as areias de uma praia turca: ele morreu junto com o irmão e a mãe na tentativa de travessia. A foto da turca Nilufer Demir choca não apenas por capturar o sublime da dor, mas pela maneira quase onírica que se compõe: em dois instantes, o primeiro de uma estranheza com a posição do menino deitado na praia, o segundo da certeza que ele só poderia estar morto -- é o mesmo ritmo do pesadelo. 

O inferno da guerra devora a entranhas do Oriente Médio, inclusive a Síria de onde a família de Aylan vinha. No Iraque, vizinho, a situação não é nada diferente, como era de se supor que ocorreria após a desastrosa invasão americana de 2003. Ocidentais e seus aliados na região são igualmente culpados pela situação, sendo todos lenientes com organizações terroristas francamente insanas como O Estado Islâmico  -- coisa que só é rompida por poucas vozes, como a de um Robert Fisk  ou de um Patrick Cockburn.

A Europa, destino mais óbvio da multidão de refugiados, fica entre um misto de fechar as portas, e a impossibilidade de se assumir definitivamente fascista, e manter as aparências "democráticas": a morte do menino mostra que (ainda) não é possível, simplesmente, condenar à morte os refugiados que bravamente cortam o Mediterrâneo, o Mare Nostrum dos romanos. Enquanto as coisas se mantêm distantes, tudo bem, mas tão perto é impossível. 

Quando o deixar morrer se torna matar por omissão, o próprio discurso liberal-democrata entra em curto-circuito: para se livrar da acusação de matar, o neoliberalimo articula a imagem liberal-democrata, a qual, dentre outras coisas, vende a mentira que matar só é possível quando algo ou alguém fez morrer, que o deixar morrer não existe, é como se dissesse que o mal é apenas e tão somente o nazista de Hollywood, que pertence ao passado, ou os regimes inimigos pelo mundo (como Assad). 

Mas quando esse discurso corre o risco de aproximar seus profetas da pecha que criam para se defenderem, o cão termina por morder a própria calda: deixar morrer desse jeito, pouco sutil e abrupto, soa como fazer morrer. Se as mortes no Oriente Médio ou na África são diluídas no fatalismo ("lá é assim mesmo"), o mesmo não se pode dizer quando elas acontecem perto e por uma omissão dos poderes europeus.

A grande narrativa -- invisível, inodora e incolor -- pode apagar causas, relações e conexões. Tentar a História. Mas quando essas mortes batem à porta e é preciso admitir a natureza mortífera da ordem atual ou capitular, o sistema prefere disfarçar, recompor e ceder. Seu ativo mais preciso é monopólio da bondade.

Da esquerdista Grécia, que não tem dinheiro para receber os refugiados, mas tem para permanecer na Otan, à extremo-direitista Hungria -- laboratório de um futuro neofascismo, a exemplo do que foi o Chile de Pinochet para o neoliberalismo -- a obediência aos poderes europeus, com a impossibilidade ética do escândalo, é patente. 

A Hungria, depois de proibir a entrada dos refugiados, "cedeu" e abriu as fronteiras, sendo o show de entrada para o espetáculo dos poderes europeus, que, com a morte do menino, "puderam se dar conta". Nada mais cínico.

A Europa, a Grande Prússia sob o comando de Fräu Merkel, e o Reino Unido de Cameron buscam reprocessar o discurso: da negação "forte" a entrada dos imigrantes -- em nome do mito da prudência e da sensatez, um mitolegema que tem funcionado bem para quase tudo -- passou para o discurso da abertura -- acompanhado da narrativa melodramática de assimilação caridosa dos pobres coitados, com o compadrio da mídia.

O Papa Francisco, em outro gesto de inteligência política, voltou a reforçar a necessidade de recepção dos refugiados, determinou a abertura do Vaticano e exigiu que as paróquias de toda a Europa recepcionem pelo menos uma família refugiada

A teologia popular do Papa Bergoglio consegue ser na prática, mais uma vez, mais ético e "moderno" -- no sentido que se emprega usualmente o termo -- do que a moderníssima Europa: não que Francisco não seja ele também político e arguto, mas a Igreja, depois de décadas bancando o mais franco neoliberalismo, pulou do barco. Por uma razão bastante simples: o plano proselitista de João Paulo 2º, continuado por Bento 16 e seu carisma de poste, fracassou.

Semente da noção de tecnocracia que cria o Estado (moderno), a Igreja, um agente estatal e, ao mesmo tempo, multinacional -- político e religioso -- é paradoxalmente um elemento hoje contraditório não apenas na sua estrutura como, também, na sua direção à fantástica aliança entre estrutura estatal alemã, sistema financeiro internacional e tecnocracia "europeia", aquilo que damos o nome de "União Europeia" -- e é, afinal, um dos pilares do sistema global. Essa peculiar forma que o catolicismo se reinsere nas disputas globais, por sinal, merece ser alvo de futuras análises.

Mas o fenômeno atual dos refugiados não se limita à rota do Mundo Islâmico em chamas para a Europa. Evidentemente, refugiados e imigrantes  de toda sorte aportam em todas as partes do mundo, inclusive no Brasil-- que além de receber mais refugiados dessa guerra, tem recebido um enorme trânsito de africanos, sul-americanos, chineses etc.

A radicalização do movimento dos fluxos de refugiados e imigrantes pelo mundo marca o acirramento das contradições no Império Global concebido por Negri e Hardt. Eis aí um dos dogmas globais: a relação entre a hipermobilidade do capital e o controle de trânsito -- pela proibição ou regulação ostensiva -- do livre trânsito de pessoas pelo mundo; a hipermobilidade (e hipervolatilidade) do capital, do jeito mais moderno possível, exige na outra ponta a fixação da forma mais arcaica dos contingentes humanos, os quais servem de reservas fixas e previsíveis de mão de obra.

O êxodo global, ao marcar o rompimento dos cercados nacionais -- e esta talvez seja das poucas serventias que os Estados-nação ainda tenham --, põe em curto-circuito essa política de regulação dos corpos e dos corpos coletivos, criando imprevisibilidade onde não deveria haver -- mesmo ponderando que a fuga dos desesperados pela guerra não signifique um nomadismo, mas um ato praticado na necessidade extrema, isto ainda assim escapa às coordenadas sistema.

Ainda, como boa parte dos conflitos que causam esse fluxo são diretamente causados, apoiados ou permitidos pelos potentados globais, como é o caso da Síria, o sistema-mundo se vê diante de uma situação emergencial: os conflitos deflagrados passam a ter consequências que saem do script e estas vêm bater à porta, literalmente, de forma inesperada. 

Quase como o Isso freudiano, o recalcado em escala coletiva -- política e socioeconômica -- emerge de outras maneiras imprevisíveis. A incapacidade do sistema-mundo operar sínteses perfeitas, que eliminassem esses resíduos o põe num pânico momentâneo, mas já enseja seu passo posterior que é a readequação da estratégia de intervenção e exploração no Oriente Médio e Norte da África e, também, uma nova forma de processamento dos fluxos de migração para que estes sejam domesticados no destino que eles venham a se estabelecer. 

A impossibilidade de praticar a eliminação direta como no início do século 20º obriga a recuos e a tentativa de assimilação desses contingentes, o que não é uma tarefa fácil e dificilmente seria perfeitamente efetiva. Talvez se tenha em vista uma migração controlada, a exemplo das políticas dos Estado nação europeus, sobretudo os nascentes, no século 19º com os países do continente americano: exportar excedentes humanos para onde faltaria gente (ou gente branca, conforme o projeto eugenista inclusive do Brasil).

Mesmo assim, a quantidade de problemas que uma migração planejada traz, por si só, já é assombrosa -- o movimento operário anarcossindical nasce no Brasil por conta disso --, imagine o acolhimento de refugiados de guerra que vêm em massa para, não raro, países que deflagram ou foram lenientes com os conflitos que causaram a confusão.

A imagem do Livro Bíblico do Êxodo, afinal, emerge: quando um Império se vê diante de uma rebelião dos fluxos humanos que lhe dão força e vitalidade, e não consegue gerar uma nova síntese em resposta, a migração se torna inevitável; tal partida gera um novo campo de possibilidades: a itinerância, a errância,  o nomadismo, ou a busca por ser aceito em um outro Estado ou, por fim, a construção de um novo Estado (ou proto-Estado). 

O destino do povo hebreu, como é sabido, foi a derradeira hipótese. Como foi a dos perseguidos na península itálica do século 8º a.C. ou dos religiosos nos domínios ingleses do século 17º. Com hebreus, tanto se consolidou assim, que temos o Livro do Êxodo, o qual se chama em hebraico, não à toa, Livro dos Nomes (Shemot), pois inicia pelo clássico "estes são os filhos de Israel": trata-se da narrativa de uma história que terminou com uma refundação, o que exige, desde sempre uma nova hierarquia, uma nova ordem, novas leis, as quais sempre demandam previamente nomes.
 
O problema do refúgio e da imigração é desde sempre como uma sístole-diástole, segundo à qual o enrijecimento de uma ordem enseja a fuga, mas esta termina novamente enquadrada em um novo Estado (O Reino de Israel, Roma ou mesmo os Estados Unidos)

Isso consiste, afinal  de contas, no objeto sobre o qual Spinoza se debruça na Teologia-Política: o problema da fuga da fundação fundada acaba sendo, no espaço, o mesmo da revolução no tempo: será que toda ela não estaria destinada a forjar um novo Estado? A conclusão disso, em Spinoza, como se sabe, é de uma tragicidade sublime com a conformação irônica -- mas em aberto -- diante da nova ordem e da nova Lei.

Contudo, o problema do refúgio no Império Global, sem sombra de dúvida, é maior: com a impossibilidade de criar um espaço propriamente novo em um mundo absolutamente desbravado e colonizado, a questão é saber se é possível reordenar esses fluxos de uma nova forma -- e como --, uma vez que as pessoas fogem do mundo para o mundo; tal questão, na verdade, pode ser vista ao inverso, por sua outra ponta: como o sistema fará, em último caso, para manter a guerra se não há contra quem lutar exceto contra si mesmo e a consequência disso seja insustentável? 

[e uma guerra civil, digamos, "global", não é propriamente uma guerra, como o suicídio ou a automutilação não são homicídio ou lesão contra outrem, tanto que para os gregos antigos elas eram expressadas por palavras muito distintas, stasis e polemós, respectivamente]

Trata-se do dilema derradeiro da projeção marxista: como em uma economia globalizada e unida pelo e sob o capitalismo, será possível manter as relações capitalistas, uma vez que estas dependem do desbravamento, da colonização e da guerra? Em sendo o mundo um só, não só eticamente, mas agora socioeconomicamente, o que acontecerá quando o capitalismo se tornar impossível? 

O gasto de energia com a guerra civil global é suicida. Seja a guerra em si ou algumas de suas consequências. A única possibilidade de lidar  Mas o sistema não tem mais a opção do outro para combater, no máximo, destruir ou domesticar minorias e dissidências aqui ou acolá, mas a guerra devém impossível, ou melhor, quase impossível: é preciso notar que a guerra, hoje, ainda existe parcialmente enquanto disputa entre tecnocracias nacionais por hegemonia no sistema-mundo, que é uma estrutura fundada por uma costura entre elas.

Essa é a condição que permite dizer que não há mais a guerra própria, mas sim uma guerra civil global que, no entanto, é temperada também por guerras usuais num sentido impróprio: não mais entre Estados-nação que constituem uma ordem global, mas por uma ordem global que os utiliza parcialmente como arcaísmo necessário. E um dos efeitos dessa guerra civil é, precisamente, a possibilidade do contemporâneo refugiado: alguém cujas condições fáticas demandam que tivesse uma cidadania global, mas cuja cidadania nacional é insuficiente.

O Império Global, composto por uma rede tecnocrática e o tecido conjuntivo do mercado, se amarra por laços comerciais e, quando muito, por tratados e acordos internacionais, nunca por lei constitucional -- o que conferiria a globalização inclusive como universalização da cidadania, para além da tentativa, bem-intencionada mas voluntarista, da "pessoa humana". Eis o desafio: mesmo neste período intermediário, abolir a guerra, por sua inutilidade mesmo "utilitária", e efetivar uma noção (jurídica) de cidadania global -- sem perder de vista uma ciência do poder que não nos afaste do terrível e do horrendo: no limite, sim, a decisão do sistema-mundo diante da sua morte pode, e deverá, ser pela autodestruição, o que nos inclui diretamente.

 




quarta-feira, 22 de julho de 2015

O Syriza Traiu ou Não? Ou Capitu na Ática

Charles Nègre -- o Vampiro (1853)
As últimas semanas foram intensas na Grécia: o Syriza, partido governista, lançou um plebiscito contra os desmandos europeus -- e não só o realizou como o venceu, por larga vantagem, contra tudo e contra todos; contudo, logo após a vitória, o ministro das finanças do país renunciou estranhamente e, em seguida, o governo sinalizou favorável a um acordo horrível com o Eurobloco, o qual contradizia frontalmente o resultado da consulta pública. Um movimento de 180º graus foi feito, resultando em um acordo vergonhoso com a Europa e a votação no Parlamento de mais medidas de austeridade -- com a rebeldia de mais de sessenta parlamentares do próprio Syriza, inclusive do ex-ministro das finanças, Yanis Varoufakis; enquanto isso manifestações tomavam as ruas de Atenas com dura repressão policial. Tudo rápido demais. 

A pergunta que surge, nos meios intelectuais engajados do Brasil, é: o Syriza traiu ou não traiu a esquerda global? Traiu ou não traiu os nossos sonhos, expectativas e fetiches? Uns garantem que não, que é impossível ter havido esta traição. Outros a pranteiam e a dão como certa. A situação mais parece o velho clichê sobre Dom Casmurro, obra imortal do nosso Machado de Assis -- bastaria trocar Syriza por Capitu e lá estaríamos nós.

O debate é colocado nos termos do olhar do paranoico: e por paranoico não tomemos necessariamente aquele que desconfia insistentemente, mas sim aquele que em vez de tentar entender a realidade, a julga, estabelecendo postulados dogmáticos de confiança ou desconfiança. A vida do paranoico é sempre crise, é sempre julgamento, sobre si, sobre o outro e sobre o mundo -- que é sempre mundo-aquém-do-mundo.


Não à toa, a crítica literária contemporânea sobre Dom Casmurro -- de Cândido a Schwarz, passando pelos mais recentes ditos e escritos -- contemplam o que Machado, antecipando na arte a Psicanálise, queria dizer: naquela obra, o que interessa não é a verdade sobre o mundo exterior, que supostamente deveria ser decifrada da narrativa onisciente falha, mas como aquele formidável delírio paranoico conta mais sobre o narrador do que sobre o mundo, ou melhor, como aquilo expressa o seu (mal?) estar-no-mundo. 


O sentimento de traição fala mais sobre uma esquerda global -- e brasileira! -- em crise do que sobre o fato da (suposta) fidelidade/traição. Na medida em que o mundo se torna objeto de permanente crise, o próprio sujeito se põe, dialeticamente, em julgamento, pois o "mundo" nada mais é aquilo que se vive como experiência. 

A esquerda, presa entre a realidade ideal e o ideal de realidade, se escraviza em suas próprias angústias -- naquilo que se expressa nos extremos entre o sectarismo niilista e o pragmatismo vão.


Há um algo muito particular no experimento grego, algo tão particular que se tornar comum: O Syriza, um instrumento político que chega ao poder depois de manifestações de multidão, que enfrenta a direita, os bancos, a esquerda falida é...tudo o que sonhamos, tudo o que precisamos no Brasil de hoje -- e em qualquer lugar! 

De repente, no entanto, Tsipras termina o processo utópico, dá um (aparente) giro na sua estratégia e, aí, temos de julgar qual é a nossa posição; e ela é expressada como nossa crítica em relação ao Syriza, mas é sobre nós e a fidelidade que deveremos ter (e agora precisará ser redobrada) ou não sobre aquele movimento.


O fato é que, não, o Syriza -- ou, melhor, o governo do Syriza -- não traiu ou foi infiel em relação aos seus apoiadores, ao contrário, ele foi fiel até o fim a uma ideia. Pois a fidelidade absoluta, autêntica e pura só pode ser a uma ideia. E as ideias não choram suas vítimas. 


Do mesmo modo, a fidelidade absoluta é sempre em relação ao Um, isto é: importa na traição a todo resto (e a muitas outras coisas). Eis o momento em que fidelidade e traição se confundem e, então, perdem o significado. O governo das ideias, como platonicamente a esquerda sonha, pode não se revelar da melhor maneira -- aliás, ele se realiza muito frequentemente, com resultados muito distantes do que se sonhava.


Podemos discutir idealisticamente se vale ou não a pena ainda defendermos o governo do Syriza, mas materialmente as coisas são inquestionáveis: quem pode dizer que os funcionários públicos gregos, os trabalhadores ou aposentados, que estão prestes a ser mais dilacerados ainda, estão errados em se mobilizar contra o acordo de Tsipras? Ou que os deputados rebeldes estão errados em se opor a tudo isso?  

Por favor, o Syriza é um instrumento político. Ou funciona ou não funciona sob o prisma das lutas materiais -- não de uma grande estratégia, plano ou ideia.

Mas o Syriza precisou aceitar todas as condições que seu próprio povo rejeitou em plebiscito, afinal, entre a dignidade e a Europa, é preciso prevalecer a Europa, pois é a unificação europeia o nome pós-moderno do velho internacionalismo -- e só com a concretização desses ideais poderemos chegar a uma sociedade absoluta e definitivamente digna.


A máquina estatal alemã fez uma aposta infinita e venceu.  Enquanto isso, se ouve a risada das hienas europeias. A Europa se unifica na forma não de um internacionalismo, mas de um estatismo bem Europeu -- como na unificação de todos os modernos Estados modernos, quando uma potência regional subsumiu as unidades políticas menores, como fez a própria Prússia em relação aos pequenos Estados germânicos para, em torno de si, fundar o Império Germânico.

A Europa unificada nascerá não-democrática -- em oposição à realidade conquistada (nem que seja parcial e relativamente) nos planos dos atuais Estados europeus. A Europa, esta Europa, nada tem a ver com democracia como observou com imensa lucidez Giorgio Agamben.


O realismo cínico da direita -- e de burocratas apáticos e apolíticos de bancos e da Europa -- faz com que seu projeto avance, sobretudo quando as forças de oposição colaboram consigo sem querer, movidos a ideias.


Um cadáver insepulto ronda a Europa, é o cadáver de Hegel. Eis a atualização correta para a célebre fala de Marx e Engels neste 2015 -- ano 8 ou 9 da Crise --, quando a bandeira europeia trêmula sobre as ruínas da economia grega.  No Brasil, a síndrome de Bentinho nos toma de assalto e nos imobiliza: se não basta apenas entender o mundo, mas muda-lo, antes é preciso deixar de julga-lo, abandonando a mania de fazer da multidão uma pilha de absolvidos e condenados.

sábado, 18 de julho de 2015

Momento Poesia: E Isso que eu Sonhei, Eu Sonho

Chavannes --Le Rêve (1883)
E ISSO QUE EU SONHEI, EU SONHO*.


E isso que eu sonhei, eu sonho,
E isso algum dia novamente eu sonharei,
E se repetirá tudo, e tudo reencarnará
E vós sonhareis com tudo que  eu vi em sonho.


Lá, além de nós, até do mundo além
Onda após onda quebra na costa
E sobre cada onda uma estrela, um homem, um pássaro
Uma realidade, um sonho, uma morte -- onda após onda.


Não preciso de números: eu era, sou e serei,
A Vida -- milagre dos milagres, de joelhos um milagre
Sozinho, como um órfão, eu mesmo me coloco
Sozinho, entre os espelhos, cercado por reflexos
Mares e cidades, incandescência em torpor
E a mãe em lágrimas leva seu rebento no colo.


(Tradução do russo em confronto com a tradução em inglês)

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Grécia: A Vitória do Não, a Renúncia de Varoufakis e a Falácia Europeia


Manifestantes comemoram a vitória na Praça Syntagma (Via Principa Marsupia)
Durante todo dia de ontem, o mundo manteve os olhos fixos no plebiscito grego. Os gregos diriam Oxi (Não) ou Nai (Sim) para a "proposta" da Europa -- na verdade, uma ordem transformada em proposta quando os líderes gregos, em um momento de inspiração, resolveram, fazer desta objeto de uma consulta popular. E o Não ganhou por larga margem, mais de 61%, em um pleito cuja participação foi semelhante à das eleições parlamentares do início do ano.

Pois bem, mal foram abertas as urnas e a suposta vitória do Sim, apontada pelos principais institutos de pesquisa gregos ao longo da semana, se desmanchou no ar; antes, os mesmos institutos já falavam, em "vitória apertada" do Não nas suas pesquisas de boca de urna, algo entre 54% e 52%, coisa que não se confirmou. Depois de uma semana de blitz midiática, terror bancário e pesquisas no mínimo falhas, os gregos deram um retumbante não contra a opressão Europeia. 
A vitória, apurada às 2:51 desta segunda-feira em Atenas (21:51 de domingo no horário de Brasília), está muito além dos 36% de votos que o Syriza obteve nas eleições de Janeiro ou dos pouco mais de 40% que sua coalizão recebeu. Mesmo somados os votos obtidos em Janeiro por todos os partidos que apoiaram o Não, eles não chegam a 50%, o que determina que houve um acréscimo substancial de apoio popular à causa antiausteridade -- tanto que Antonis Samaras, ex-premiê e líder da oposição, renunciou ao seu posto.

Ocorre que pela manhã de hoje em Atenas, madrugada no Brasil, surge uma novidade quando os partidário do Não mal haviam se retirado das comemorações na Praça Syntagma, um fato surpreendente aconteceu: Yanis Varoufakis, o superministro da economia do Syriza, renunciou

Varoufakis, literalmente um grego entre romanos, perturbava os euroburocratas, seja por sua formação mais próxima da heresia anglo-americana de esquerda (e seus think tanks) ou por sua figura protagonista na mídia. Há pouco mais de uma semana, ele foi expulso pelos seus pares da reunião dos ministros da economia do bloco, quando as normas costumeiras determinam que deve haver unanimidade sobre certas decisões e presença de todos os pares, gerando assim parte do imbróglio que motivou a convocação de consulta popular.

Trata-se, pois, de uma renúncia bastante estranha e inesperada, uma vez que segundo o agora ex-ministro -- que chegou a dar coletiva de imprensa depois da vitória do Não -- sua decisão se deu porque o premiê grego, Alex Tsipras, aceitou que ele não estaria presente na reabertura das negociações, uma vez que havia indisposição com seu nome.

Na prática, o "gesto de boa vontade" para com a Europa de Tsipras parece ilógico: depois de ter vencido o plebiscito, ele aceitou um dos vetos europeus que causaram a própria convocação da consulta.

Será que o gesto de Tsipras dará certo? Ou melhor, a forma como o Syriza significa a importância dessa atual União Europeia faz sentido? Será que a negociação que Tsipras imagina irá mesmo ocorrer? Será que diante da vitória de ontem, não sustentar seu corpo ministerial, sobretudo seu principal ministro, faz algum sentido?

O ponto é que o Syriza supõe que venceu o plebiscito de ontem -- com uma votação muito acima da que o levou ao poder em Janeiro -- com uma promessa de reforma da Europa, promessa da qual não pode se desvencilhar, o que é mais uma autoilusão do que uma ilusão que o eleitorado nutre a respeito dele: as pessoas querem emprego, dinheiro para se alimentar etc. 

Se existe alguma preferência pelo Euro e pela ideia de europeísmo, isto se dá pragmaticamente pela forma como isso poderia melhorar a vida dos gregos. Se hoje a Grécia abrisse mão do Euro e as coisas melhorassem, obviamente, ninguém iria se opor a isso.

Entre a Europa ideal e o que é a Europa hoje há, pois, um profundo abismo. E a crise econômica, que levou os governos a gastarem o que não tinham para resgatar os bancos sem garantias, apenas revelou, e não transformou, o rosto verdadeiro do comando europeu: tecnocrático, desumano e implacável.

Se com o tempo, os Estados nação europeus foram democratizados à força -- e muitas instituições multitudinárias e se cristalizaram no funcionamento da máquina --, quando o "sonho europeu" foi edificado, com sua bela bandeira e seu lindo hino, tomando aos poucos atribuições nacionais, as novas instituições europeias já nasceram imunizadas das reivindicação plebeia.

Se para um Rancière, os nossos sistemas são um misto de democracia com oligarquia, a estrutura de Estado europeia, ao contrário do que as lutas determinaram nos planos nacionais, já nascia com sobrepeso para as castas burocráticas, financeiras e afins. 

O processo desencadeado na Europa ruma, pois, não para um pós-Estado, mas para uma forma de Estado plurinacional, coisa que a Espanha, Bélgica ou Reino Unido já são, mas certamente dando mais voz às suas sociedades civis e às suas minorias nacionais. 

Não há novidade alguma nesse "projeto europeu" -- e menos ainda quando os tecnocratas continentais se aliam com banqueiros para se retroalimentarem, fazendo com que o futuro Estado europeu se pareça mais com uma União Soviética, só que sem qualquer conteúdo revolucionário.

O gesto de Varoufakis sobre Tsipras é mais simples, embora potente: fora do governo, depois de sair de cena em uma condição vitoriosa, ele joga luz e peso sobre a decisão pragmática de seu premiê. Varoufakis sai fortalecido e Tsipras resta sob pressão do que ele está disposto a fazer nessas negociações -- e já não é a primeira vez que Tsipras se mostra pronto a vacilar. Existe aí  uma disputa sobre métodos e formas para se chegar ao mesmo objetivo. 

Varoufakis, como um cavalheiro, abre espaço em prol do coletivo, mas também obriga que essa mesma coletividade assuma seus compromissos. Um gesto de (auto)entrega sacrificial semelhante ao da proposição do plebiscito. E de fato, até agora, o Syriza ganha de 7x1 no desmonte dos mitos construídos pelos oligarcas europeus.

De todo modo, entre a posição de um e outro, existe a armadilha entre a Europa que é, a que deveria ser e a que é possível. Todos os gestos éticos do governo grego são golpes duros contra uma estrutura de poder que, contudo, ciente da derrota nesse âmbito, aposta na estratégia do medo quase que exclusivamente para atender propósitos transcendentais -- ou menos até do que isso, interesses pequenos que vão desde um cargo até o pequeno poder.

Como já alertou o Nobel de Economia Joseph Stiglitz, há vida se houver ruptura com o Euro, fato que é muito mais um tabu para o próprio Syriza do que para a população grega ou para a ciência econômica. 

Se o Syriza se mantiver forte, usar com sabedoria a vitória de ontem e souber que a Europa unificada é um meio, e não o fim, das lutas democráticas, ele poderá vencer ou, no seu sacrifício, reverter um quadro que parecia certo -- mas para isso precisará adotar planos de contingência certamente muito mais duros do que os atuais. Os próximos dias serão decisivos.